

DJs portugueses · Sets selecionados · Lançamentos musicais com curadoria de M.J.Mellow
PARTY TALK:
Quando ouves hoje uma produção tua de há quinze anos, o que te surpreende mais: aquilo que mudou ou aquilo que já estava lá?
Ramboiage:
Os dois. Umas faixas oiço hoje e penso: “Este gajo sabia o que fazia.” Outras oiço e só me apetece carregar no stop e ir corrigir tudo.
Qual foi o momento, lugar ou tema que te fez querer tornar DJ/produtor?
Ramboiage:
Tenho má memória, boa desculpa. Mas se tenho de apontar um dedo: “Shades of Jae”, do Moodymann. Culpado.
O Disco Taco põe-te também no papel de cofundador. O que é que este projeto te permite criar que não cabe dentro de uma faixa nem de um set?
Ramboiage:
Abraços, amigos, desconhecidos que se tornam amigos, e os tacos do Hugo Candeias — meu sócio no Disco Taco, um dos meus amigos mais chegados e provavelmente o melhor chef que conheço pessoalmente.
Isto não cabe num set. Cabe numa festa.
Qual é a tua influência mais inesperada fora da música?
Ramboiage:
Neste momento só uma, e é gigante: a minha filha, que nasce em dezembro.
Já ando a planear um EP só para ela.
No teu novo EP, cada faixa representa uma das tuas praias preferidas. O que quiseste explorar em cada uma? E, afinal, qual é a tua praia?
Ramboiage:
A “Cordoama” nasceu porque a minha namorada disse: “Dá-lhe esse nome, é a minha praia preferida.” E pronto, ficou.
Daí veio a ideia de fazer mais duas faixas com outras praias da costa.
Quanto à minha praia preferida? Sinceramente, sou mais de esplanada na areia, com petiscos e uma imperial bem fresca, do que de toalha ao sol.
SOUNDPROOF

RAMBOIAGE
a arte de fazer ramboia
Há artistas que se tornam conhecidos por um som. Outros tornam-se parte da história de uma cidade.
Ramboiage é um bocado dos dois
Há mais de uma década que o nome de Vítor Silveira está associado à cultura de dança em Portugal. DJ, produtor, programador e, acima de tudo, um apaixonado pela pista, construiu um percurso que acompanha várias fases da noite lisboeta, dos clubes mais pequenos às grandes produções, da cabine ao estúdio e da seleção musical à direção artística.
A história começa no Bairro Alto, onde começou a pôr discos e a descobrir a noite lisboeta através de espaços como o Frágil, Clube da Esquina, Maria Caxuxa e Bedroom. O percurso acabaria por levá-lo ao Lux Frágil, onde foi residente até 2016.
O Lux seria um capítulo particularmente importante. Numa época em que a identidade da noite lisboeta estava a ganhar novas formas, Ramboiage tornou-se uma presença regular numa das pistas mais influentes da cidade. Mas a sua relação com a música nunca se resumiu a tocar discos.
Da cabine para a programação
Em 2016, Ramboiage passou a assumir a direção artística do Brunch Electronik Lisboa. A mudança marcou uma nova dimensão no seu percurso: depois de anos a aprender a ler uma pista a partir da cabine, passou também a construir a própria experiência do público a partir do outro lado.
A programação do Brunch Electronik mostra bem a amplitude desse trabalho. Em 2017, por exemplo, o festival apresentava artistas como Âme, Gui Boratto, Jackmaster, Magda, Michael Mayer, Miss Kittin, Nic Fanciulli e Talaboman.
E essa experiência de programação complementa uma identidade musical que sempre privilegiou o groove, a descoberta e a capacidade de construir uma narrativa sem ficar presa a fronteiras rígidas.
Um som com memória
Disco, funk, house, nu-disco, electrónica — as referências podem ser muitas, mas existe uma característica constante no universo Ramboiage: a música tem de ter movimento.
Há uma ligação evidente às sonoridades disco e funk dos anos 70 e à house norte-americana, mas essas referências são tratadas como matéria-prima, não como uma fórmula. O resultado é uma linguagem suficientemente familiar para provocar reconhecimento e suficientemente aberta para continuar a surpreender.
Ao longo dos anos, essa linguagem levou-o muito para além de Lisboa. Ramboiage passou por clubes e festivais em Portugal e actuou internacionalmente em cidades como Nova Iorque, Berlim, Los Angeles, Cidade do México, Londres, Barcelona, Amesterdão, Paris e Bali, além de festivais como NOS Alive, MEO Sudoeste, Super Bock Super Rock, Rock in Rio Lisboa e Dimensions, na Croácia.
A produção veio acompanhar esse percurso, com lançamentos e remixes por diferentes editoras internacionais e uma discografia que foi consolidando a sua identidade para lá da cabine.
Coast to Coast
E é precisamente aqui que chegamos ao capítulo mais recente.
Em agosto, Ramboiage apresentou em exclusivo na Traxsource o seu novo Coast to Coast EP, composto por três temas: “Arribana”, “Cordoada” e “Baleal”.
Três títulos. Três lugares. Uma viagem pela costa portuguesa.
O próprio nome Coast to Coast abre uma porta para uma leitura diferente do seu trabalho. Depois de tantos anos associados às pistas, clubes e grandes festivais, há algo de mais territorial neste lançamento, uma ligação entre música e a costa portuguesa.
E há uma pergunta inevitável: o que significam estes lugares para Ramboiage?
É uma história que queremos ouvir directamente do próprio.
Quando a música sai da pista
Essa capacidade de pensar a música como experiência colectiva aparece também no Disco Taco, o projecto que Ramboiage desenvolveu com o chef Hugo Candeias.
A ideia é tão simples quanto eficaz: juntar disco, tacos e cocktails no mesmo espaço.
O projecto começou como um pop-up em Lisboa e foi crescendo através de diferentes edições e espaços. Em 2026, chegou inclusivamente ao Lat.A, na Doca de Santo Amaro, mantendo a fórmula: a seleção musical de Ramboiage, a cozinha de Hugo Candeias e um ambiente pensado para que jantar e pista de dança possam coexistir naturalmente.
O Disco Taco é interessante precisamente porque parece uma extensão natural daquilo que Ramboiage tem feito ao longo da carreira.
A música como ponto de encontro.
Uma carreira construída à volta da pista
Talvez seja essa a melhor forma de olhar para o percurso de Ramboiage.
Mais do que uma sucessão de clubes, festivais, editoras e projetos, existe uma linha contínua: a vontade de criar momentos em que as pessoas querem ficar.
Este mês, no DJ Booth da Lisbon Party People, sentámo-nos à conversa com Ramboiage para falar sobre o seu percurso, a cena portuguesa, produção, programação, o novo Coast to Coast EP e aquilo que continua a fazer uma verdadeira ramboia.
E o tema escolhido para esta edição foi Cordoama, a praia de eleição de Ramboiage

